Professor Ramatis Jacino debate a Escravidão Inacabada em palestra na sede do Sindicato
A sede do Sindicato foi palco de um importante debate sobre as raízes da desigualdade e do preconceito no país com a realização da palestra “ESCRAVIDÃO INACABADA: memória, resistência e justiça!”, ministrada pelo historiador e doutor Ramatis Jacino na manhã deste sábado, dia 30 de maio. O evento, voltado principalmente aos alunos do curso pré-vestibular GEVA, mas também aberto ao público geral, reuniu estudantes, diretores e convidados para refletir sobre como o processo de abolição moldou a estrutura social brasileira e de que forma os reflexos desse passado se conectam com os desafios políticos e globais do presente.
Durante a atividade, Ramatis explicou que a abolição da escravatura no Brasil não foi um ato de benevolência, mas o resultado de três fatores centrais que se cruzaram no final do século XIX. O primeiro deles foi a resistência aguerrida e histórica dos próprios escravizados, que desde a chegada dos primeiros africanos ao solo brasileiro lutaram de diversas formas contra o sistema, inclusive utilizando a força. O segundo fator foi a forte pressão econômica do Império Britânico, que vivenciava a Revolução Industrial e necessitava expandir seus mercados consumidores, uma realidade incompatível com a escravidão, já que os escravizados não recebiam salários e não podiam consumir. Por fim, a própria lógica do capitalismo impulsionou o fim desse regime, pois, enquanto na escravidão o proprietário assumia todo o risco financeiro e os custos com a compra, saúde e morte do indivíduo, o sistema capitalista passou a comprar apenas a força de trabalho, tornando mais barata a lógica de demitir ou substituir o trabalhador quando necessário.
O palestrante defendeu que esse processo foi incompleto porque a transição para o mercado livre negou à população negra uma cidadania concreta e digna. Embora os negros tenham se tornado cidadãos do ponto de vista estritamente legal, o Estado brasileiro agiu deliberadamente para marginalizá-los e impedir sua integração social, especialmente no acesso ao trabalho. O professor citou o exemplo de posturas municipais de 1886 na cidade de São Paulo que proibiam os negros de exercer certas profissões e de estudar, ao mesmo tempo em que a máquina pública criava uma série de ações administrativas para financiar e favorecer a vinda de imigrantes europeus, movida pelo ideal racista da época de que o país precisava ser branqueado. Essa exclusão deliberada perpetrada pelo Estado é a raiz direta das desigualdades e da marginalização que a população negra ainda enfrenta na sociedade atual.
Ao conectar a história com o cenário atual, Ramatis Jacino alertou que essa herança racista serve como um terreno fértil para o avanço de discursos de extrema-direita.
‘”Mas a ideia é isso que é colocado, e isso é o terreno fértil para a direita, é isso que faz com que parte significativa seja ganha para a direita. E acho que o nosso papel é que nós todos, professores, estudantes, sindicalistas, trabalhadores e trabalhadoras em geral, disputar essa gente na sociedade, que são nossos irmãos, nossos primos, nossos vizinhos, nossos amigos, que muitas vezes se deixam levar por esse tipo de discurso”, alertou.
Expandindo a análise para o contexto internacional e dialogando com as intervenções do público, o palestrante apontou que o racismo se manifesta globalmente de outras formas históricas, como o antissemitismo na Europa e, atualmente, o sionismo na política do Oriente Médio. Ele classificou como uma tragédia pavorosa e um verdadeiro genocídio as ações militares promovidas pelo governo de Benjamin Netanyahu e seus aliados na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã, movidas por uma ideologia de superioridade e também chamou a atenção dos presentes para as recentes tentativas de grupos políticos no Brasil de instrumentalizar cenários jurídicos estrangeiros para justificar intervenções e narrativas de criminalização contra os movimentos sociais internamente.
“Então, este horror que está acontecendo, nós precisamos nos colocar contra. Seja contra o racismo que historicamente ataca a população negra, seja contra outras formas de opressão e ideologias de superioridade pelo mundo, o nosso papel é denunciar e combater esses monstros da nossa sociedade”, concluiu.














